MEANDROS

Contos

Em construção 3

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Em construção 4

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Em construção 5

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11 outubro 2010

PENSAMINTO - Revista de Literatura e Arte (edição 13)


Publicada em abril de 2000, a 13ª edição de "Pensaminto", em sua segunda fase, trouxe na capa arte de Bonin e,no miolo, um apanhado sobre a poesia em Juiz de Fora, dando enfoque especial para a poesia de Iacyr Anderson Freitas e artigo de Jorge Sanglard sobre os movimentos literários naquela cidade, com poemas de Fernando Fiorese, Júlio Polidoro, Marta Gonçalves,Eustáquio Gorgone, Gilvan P. Ribeiro, Knorr e Edimilson de Almeira Pereira. Confira flashes da revista.

SÉRIE ARTISTAS PLÁSTICOS DE CATAGUASES

BONIN

Com estilo voltado para o expressionismo abstrato, Bonin apresenta em sua obra, como característica marcante, a expressão da essência histórica contemporânea. Assim, cada traço seu traz, ainda que nas nuances mais subjetivas, pedaço de um tempo, de um fato,imagem que tenha marcado ou que venha a marcar a história.
Nascido na cidade de Leopoldina em 24 de maio de 1963, Bonin reside em Cataguases desde 1978. Pinta desde 1983, tendo realizado várias exposições individuais e mais de 20 coletivas em Cataguases, Brasília, Belo Horizonte e Juiz de Fora, entre outras cidades.
Trabalha dentro das técnicas: óleo sobre tela, guache e nanquim.


UM POETA NO CAMINHO
IACYR ANDERSON FREITAS
A poesia de Iacyr é marcada por metáforas densas, por um sentido mergulhado na complexidade da vida e da morte. Não é a melodia ou mesmo a beleza de imagens que marca o estilo deste poeta, mas os labirintos que forçam o leitor a investigar, desvendar signos, descobrir o poema com sua riqueza semântica e sofisticação literária.
Iacyr nasceu em Patrocínio do Muriaé, em 1963. É engenheiro civil por formação, também mestre em Teoria da Literatura. Entre os seus inúmeros livros publicados, Pensaminto destaca dois poemas dos livros "Lázaro" (d'lira, 1995) e "mirante" (d'lira, 1999).

SENTIDO
decerto um ritmo,
algo impeciso
em suas conchas,
saberá lembrar
o que se escreve agora,
à cilha
que o calor segreda,
mas em rusga,
sem outros liames
que o delito dessas flores,
ó pobres, ó desguarnecidas,
como o sol
de um telheiro carcomido
sob a pele.

um ritmo: decerto
muito pouco
ante o vestígio
do que aqui se espera.

eis que a hora fecha-se
nos mangues.
o sentido dorme,
a paixão procura
a morte, outra quimera.

POSFÁCIO
Abre-se um novo embate. Abre-se a musa.
Eis que o metro força o antigo engenho.
Devo encaixar o mundo numa blusa
e, pródigo, doar que eu não tenho.
Devo encontrar outrora esse soneto.
Também medir com régua cada estrofe.
Não é fácil o risco em que me meto:
há que cuidar com fé, pra que não mofe
cada palavra. Cada ponto e acento,
cada elisão contida na fuzarca
do verbo e dor e lu em que me aguento.
Não busques aqui Camões ou Petrarca.
Não eleves tamanho experimento,
pois nem essa ilusão meu verso embarca.

POETAS DE JUIZ DE FORA

A MORTE
(Júlio Polidoro)
A morte e seu cortejo

Galopa sobre mim
eu passo.

Num jardim qualquer,
o Homem
quer-se afastado deste cálice.

Que posso dizer
Que não me movo de seu movimento?

Ao seu galope
respondo, chão cicatrizado.
..........
DANAÇÃO
Fernando Fiorese

Bom mesmo
era morar num lugar
de nome bonito
- Nossa Senhora dos Remédios,
São Tomé das Letras,
Dores do Turvo -
cultivar violetas e samambaias
e fazer do itinerário dos peixes
minha música
e não
ficar polindo os ossos do mito.
..........
SEZÃO
Gilvan P. Ribeiro

No sol de capricórnio
a carne nunca é triste.
Em cada encontro
o risco sempre existe
de momentos assim
pejados de tristura.
Mas passada a pancada
a emoção futura
carrega a dor embora
e do que é triste
faz outra vez motivo
pra estar em riste.
..........
ORELHA FURADA
Edimilson de Almeida Pereira

Dançar o nome com o braço na palavra: como
em sua casa um maconde

Dançar o nome pai dos deuses que pode tudo
neste mundo e suportar o lagarto querendo ser
bispo na sombra.

Dançar o nome na miséria, estrepe e tripa que a
folha do livro é. E se entender dono das letras
em sua cozinha.

Dançar o nome com a mulher nhora dele: a
mulher no seu coração tempestade e ciranda.

Dançar o nome com o braço na palavra berço.
..........
DOAÇÃO
Marta Gonçalves

Cortaram meus ossos ao iniciar o sol
e galos vermelhos sugaram o pó.

Fiquei oca como moringa de barro.

Não havia água.
Só o choro seco do tempo perdido.
..........
POEMAS/20
Eustáquio Gorgone

Nas quatro portas da cidade
teu olhar me cerca e fixa
na íris, minha íris, tua ira.
Sinto os arcos emparelhados,
primavera e inverno retidos,
o céu estrangeiro e branco.
Não posso antecipar as horas,
reter os vestígios do outono,
o canto das pedras e pássaros.

Irrigado por rios secos,
volto ao plantio do pó.


"Pensaminto",revista de Literatura e Arte, foi editada, de 1995 a 2000 por Idalina de Carvalho, em Cataguases (MG), e distribuída no Brasil e exterior.

09 outubro 2010

PENSAMINTO 12 - segunda fase



Publicado em março de 2000, a edição número 12 trouxe na capa a artista plástica Nanzita, em desenho feito exclusivamente para PENSAMINTO. Nanzita, nascida em Cataguases, começou a pintar em 1940, estudando com os mestres Ian Zack, Abelardo Zaluar e Frank Schaeffer. Idealizadora e criadora da "Gal Art" (Centro de Arte e Cultura de Cataguases), Nanzita expôs individualmente e em coletivas por todo o país e em várias cidades do Japão.

O que marca, sobretudo, o seu nome na história de Cataguases são os murais pintados por ela nas igrejas da cidade. Baseada no livro "Paixão de Cristosegundo o Cirurgião", de Pierre Barbet, Nanzita retratou a agonia de Cristo sob uma ótica vanguardista, marcadamente pelas cores que levam o público a meditar sobre a própria vida: Nas paredes do Santuário Santa Rita de Cássia, a artista deixou registrado seu estilo em "Via Sacra". Pintou ainda, sob o tema "São Francisco de Assis", mural na Capela da Fazenda do Rochedo, no distrito do Glória de Cataguases. E, na Igreja do Rosario, o mural pintado por Nanzita próximo à pia batismal, retrata os apóstolos numa interpretação bíblica original sobre a "Ressurreição de Cristo o batismo".


UM POETA NO CAMINHO
JOANYR DE OLIVEIRA

DOno de uma poesia de formação clássica, densa, sutil, de linguagem limpa é precisa. Joanyr é um poeta que domina perfeitamente a essência lírica, retratando, a um mesmo tempo, simplicidade, bom gosto extremo e beleza. Quem lê seus poemas, mergulha no mais profundo da alma humana. E sai leve, banhado pela beleza de "cascos que cavam-me os olhos", "casulos de silêncio que recolhem meu rosto", envolvido pelo "ninho: mão sem fadigas a colher a vida". Como disse Marcos Konder Reis: "Sua poesia dá a sensação (rara) e coisa acabada, onde se disse (bem) tudo">

Mineiro de Aimorés, Joanyr passou a residir em Brasília em 1960. Autor de mais de uma dúzia de livro de poesia e participante de coletâneas publicadas no Brasil e exterior, ganhou mais de trinta prêmios literários. Abaixo, dois poemas do seu livro "Pluricanto - trinta anos de poesia".

NO METRÔ DE PARIS
(A Íris Miglio)

A anular o silêncio,
no metrô em Paris,
dez dedos de ouro
destilaram canções.
Sobre as rodas monótonas,
idiomas revezaram-se
na celebração do amor.

Subitamente as cordas
acolitaram estrofe
ledas verde-amarelas
nos lábios suspensos:
eram Tom e Vinícius
como taças no ar...

Um sorriso se impôs
a abarcar todo o Rio
no outro lado do mar.
........................

EPITÁFIO

Os casulos do silêncio
recolhem meu rosto,
meu canto e meu nome.

Entre arcanjos e estrelas,
minha essência navega
o esplendor dos milênios.

Doce é o saber do infinito.

17 julho 2010

PENSAMINTO - Revista de Literatura e Arte



Com capa do artista plástico Sérgio França, o número 11 da segunda fase de PENSAMINTO homenageou o poeta Ronaldo Costa Fernandes, de Brasília, e trouxe também crítica sobre os livros infanto-juvenis: "La Cucaracha" (Cleonice Rainho) e "A dança da lua cheia" (de Joilson Portocalvo)e o artigo "Coibindo o bilingüismo", de Emanuel Medeiros Vieira.

SÉRGIO FRANÇA

Nasceu em Cataguases em 18 de agosto de 1959. Morou no Rio de Janeiro por dezessete anos, período em que, além das várias exposições de que participou, fez cenografia teatral. Está em Cataguases desde 1994 e integra o grupo de artistas plásticos G15.
Sua técnica é essencialmente óleo sobre tela, mas ele trabalha também com colagens e assemblagens. A característica principal de sua obra é a integração da pintura com o universo que o cerca, transformando-a quase em escultura.

Para contactar o artista, entre em contato conosco.


UM POETA NO CAMINHO

RONALDO COSTA FERNANDES


Por Idalina de Carvalho


Intuitivo, poeta de maturidade literária admirável, Ronaldo apresenta em seus poemas uma arquitetura retorcida, insana, marcada pelo inverso, em imagens de desejos e frustrações. Não é à natureza que o poeta dá o dom da vida - mas às coisas que aparecem em seus poemas - "lambendo, respirando, fumando a alma operária". O universo que o cerca é percebido com a cegueira de um sábio, recriando realidade, transferindo-a para dimensão diversa.

Ronaldo Costa Fernandes é um dos poetas mais inovadores da poesia contemporânea. Maranhense de São Luiz, morou por nove anos na Venezuela, dirigindo o Centro de Estudos Brasileiros (Embaixada do Brasil). Em 1994 foi para Brasília, onde foi coordenador da FUNARTE. "Estrangeiro" foi o seu primeiro livro de poemas, que o levou de volta à sua expressâo inicial, depois de haver passado pelo ensaio e prosa de ficção.

Dois livros seus: "Concerto para flauta e martelo"(romance-Codecri-1979) e "O ladrão de cartas"(novela-Civilização Brasileira-1981) ganharam, respectivamente, os prêmios "Autor Revelação" - da Associação Paulista de Críticos de Arte, e o "Prêmio Guimarães Rosa" - da Secretaria de Cultura de Minas Gerais. Ganhou ainda o prêmio "Casa de Las Américas", com "Notícias do horto".

Os dois poemas abaixo fazem parte do livro "O estrangeiro".

QUIETUDE

Acompanhei a dúvida das frutas amadurecendo
ainda no féretro do outono.
Tudo é quieto, finito
e profundo.
Os pescadores lançam
as varas de pescar
e esticam o tempo.
Os barcos, no cais, são vermes inquietos,
presos à terra.
As mangueiras dão frutos como os peitos
entumescidos das parturientes.
Cobiço as frutas vizinhas distantes cercas
de mim.
Pensei na esperança que deve ter muitos nomes.
Na morna tarde dos anos
e no futuro das lembranças de maio,
soturna e definitiva como uma lápide ao sol,
veio-me a vontade de riscos.

CIDADE PEQUENA

O sol
traço
morse
tenta
telegrafar
a manhã.

A nuvem
furta
o fruto
do galho
da árvore
do dia.

Os bois
mugem
a névoa
espessa
e
fria.

O trem
apita
a curva
metálica
e
uma chaminé
fuma
a alma
operária.

O carteiro
sela
o destino.
A igreja
repica
dízimos
periódicos.

A praça
roda
gigante
e
a moça
troca
o trote
do moço.

Por fim
o sol
cai
no cofre
e
a lua
desliza
rolimã.






27 abril 2010

PENSAMINTO - Revista de Literatura e Arte


Com o lançamento da segunda fase de sua publicação no mês de janeiro de 2000, PENSAMINTO marcou presença no cenário da imprensa alternativa cultural através da reunião de poetas e escritores do Brasil e de várias partes do mundo.

Na capa da edição 10 (o primeiro número da segunda fase), a ilustração com as nove capas da publicação em sua fase inicial marca a mudança do formato, de folheto para revista.

Vale ressaltar, nesta edição, o enfoque dado à poeta pernambucana Tereza Thenório, na página "Um poeta no caminho", transcrita a seguir:


TEREZA THENÓRIO

Por Idalina de Carvalho

O silêncio se faz presente na obra de Tereza Thenório, como gerador da beleza de seus poemas. É sempre de dentro que vê o mundo que a cerca, "sem palavras ou gestos terminais", mulher que "despe solitária os gestos de amor sobejo", "dissolvendo o silêncio" com a "solidão concreta a acionar os portões eletrônico de Wall Street".

Tereza está entre as melhores do nosso tempo. Nascida em Recife, Pernambuco, é mestra em Letras e tem formação ainda em Direito e Belas Artes.

Seus livros: Parábola (1970), O círculo e a pirâmide (1976), Mandala (1980), Noturno selvagm (1981), Poemaceso (1985), Corpo da Terra (1994).

(Atenção: As informações acima referem-se às atividades da autora até o ano de 2000, ano da publicação da revista "Pensaminto" de onde foi transcrito o texto).

Confira dois poemas do livo "Corpo da Terra":

ELES PASSEIAM

Eles passeiam os corpos no vazio
e minha voz refaz vicissitudes
Amei-os como ondas no mar frio
Depois de afogá-los no crepúsculo

trouxe-os lentamente um por um
longos braços e pernas para o estio
Retive em mim os corpos mutilados
Depois os devolvi ao negro rio

Uma canção sem sol fluiu-me à boca
Algum amei além da morte Outro
exatamente o espaço de uma lágrima

Eles passeiam sobre minha alma
enquanto o rio dissolve aos poucos
e uma canção sem sol me sai da boca

SUBLUNAR

A Madalena Freyre

Assim acesa máscara da sombra
eia a pátria do sonho e desalento
tatuada na pele ferro em brasa
a dispersar-se em círculos concêntricos
inundando paisagens dunas haras
arrecifes e atóis céus e silêncios
Quando as ondas engolem o sol e a praia
e os espelhos refletem até o sempre
o lamento final dos afogados
seus olhares sem cor ausente o tempo
ao sabor das correntes fio de espada
do mar que os despedaça suavemente
uma mulher constrói no coração
a estrela interior Dor desalento
transformam-se na luz Alva presença
do Anjo antes da queda em novo temp(l)o

(Pensaminto 10 - segunda fase - página 03. Cataguases - MG)
VEJA O PERFIL DE PENSAMINTO NO ORKUT:
http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=14595548097970280937

01 abril 2010

Fotos do lançamento de MEANDROS





Na primeira foto, Eliane Pessoa - coordenadora municipal do PROLER, Idalina de Carvalho e Maria Lúcia Soares - presidente do DEM Mulher de Minas Gerais.

Na segunda foto, José de Lelis e Idalina de Carvalho.

Logo abaixo, o poeta Israel Corraide, Idalina de Carvalho, o artista plástico Luiz Lopez e a psicóloga Glória.

Por último, Diego Lucas - músico e professor, a radialista Catarina Couto, Idalina de Carvalho e o teatrólogo Carlos Sérgio Bittencourt.

24 março 2010

LANÇAMENTO DE MEANDROS - FOTOS





Na primeira foto, Idalina ladeada pelas alunas Paty e Julyete.
Na segunda foto, com Roberto Catroli, responsável pela programação visual de MEANDROS.
Embaixo, da esquerda para a direita, o escritor Vanderlei Pequeno, o teatrólogo Carlos Sérgio Bittencourt, o poeta Ronaldo Werneck, Idalina e o professor de literatura, Diego Lucas.

LANÇAMENTO DO LIVRO MEANDROS




A chuva intensa que caiu na cidade de Cataguases na noite de 12 de março último não tirou o brilho do lançamento do livro "Meandros", que reúne poemas e minicontos sensuais de Idalina de Carvalho.

O Centro Cultural Humberto Mauro em Cataguases, recebeu nomes expressivos do meio cultural, bem como jornalistas e amigos da autora, numa ambiente aconchegante e descontraído, no evento regado à brasileiríssima cerveja gelada e um delicioso coquetel da Dona Ziroca.

Segundo a autora, o livro "Beijar, ficar e outros verbos adolescentes" disponível em seu site, poderá ser publicado ainda neste ano, se for aprovado pela Lei Municipal de Apoio à Cultura, "Ascânio Lopes".

Atualmente cursando Filosofia na Universidade Federal de Juiz de Fora, Idalina se divide entre Cataguases e aquela cidade, onde encontra um novo contexto para as suas vivências e, como conseqüência, para as suas histórias.

Confira mais fotos sobre o lançamento no site:
http://www.primeirojornal.jor.br/

07 março 2010

LANÇAMENTO DO NOVO LIVRO "MEANDROS"


Título do livro: MEANDROS (poemas e minicontos)
Autora: Idalina de Carvalho
Número de páginas: 60

RELEASE
“Meandros” reúne a parte mais sensual da obra de Idalina de Carvalho, com poemas de um erotismo sutil, quase religioso.
Enquanto “Quase Pecado”, o primeiro livro publicado, apresentava um surrealismo pontiagudo, quase insano, este segundo livro, embora também carregado de emoções fortes, trata muito mais do prazer que do pecado.
Idalina de Carvalho escreve pouco, devido ao exagerado senso crítico, por haver exercido por tanto tempo a crítica literária enquanto editava “Pensaminto”.
Por influência do poeta concreto Joaquim Branco, criou o hábito do estilo conciso, quase mudo, de retratar a vida. Há silêncio em sua poesia.
Com a mestra Lina Tâmega, aprendeu a brincar e exercer seu domínio sobre a palavra, fazendo da emoção apenas o tempero de seus escritos.
“Dama das palavras”: é assim que vários amigos definem Idalina, pela facilidade que ela tem de transformar e fazer caber em cada palavra o sentido da própria vida.
O livro “Meandros” é dividido em duas partes: a primeira com poemas e a segunda com minicontos que, na opinião de muitos, são o ponto forte da obra de Idalina.
Abaixo, dois minicontos e dois poemas do livro MEANDROS.

SILÊNCIO

Sim
sou
sua

aquece
sacia
sossega-me o cio

suga
sorve a seiva
dessa sua serva

sobe ao céu
em sussurros
espasmos

sim
sou
sua


CANTIGA

sol com chuva
casamento de viúva

a poesia não resistiu
molhou-se feito criança
no meio da rua

sol com chuva
casamento de viúva
é tempestade de verão

sol com chuva
a viúva está molhada

sol com chuva
lua e mel

sol com chuva
arco-íris
passarela multicor
festa no céu
**********

MÃE DE FAMÍLIA

Os gritos que não que agora não e o fogo esquentando a barriga encostada no fogão e a insistência dele e a comida no fogo, hora de almoço, levar as crianças para a escola e a cozinha desarrumada, pia cheia de vasilhas e não não e não, agora não, e ele invadindo seu espaço, umedecendo sua nuca e ouvidos ofegante em sussurros, e ela perdendo as forças, pernas estremecidas e as mãos dele afrouxando sua saia e ela sem voz em sussurros não por favor não, o almoço, panela fritando arroz, bife na outra trempa, feijão inteiro fervendo, o fogo invadindo toda a cozinha e a mesa posta, e as crianças na casa da avó tomando banho, e a comida...
o cheiro da comida queimada, abolida de condição de ser almoço.


FINAL FELIZ

Naquela noite cobriu-a de mimos. Foram palavras, sonhos em pinturas vazadas até sons denunciarem novo dia. Braços a puxá-la noite adentro e sussurros te amo, te amo, juras de nunca usar extremos da cama, ladainhas de protetor, querer vê-la feliz, de não merecer tal vida de sacrifícios. E beijos tantos, tantos, até lábios amolecerem de tanto vadiar. Um sentir a vida de dentro, intenso, amor de verdade daqueles de filmes de cinema.
Depois casaram-se.



IDALINA DE CARVALHO
(alternativa e marginal)


* Entrevista publicada no www.antologiamomentoliterocultural.blogspot.com (blog do jornalista Selmo Vasconcelos, colunista do Momento lítero-cultural, de Rondônia.

1-Quais as suas outras atividades, além de escrever ?
Desde 2006 minha atenção tem estado voltada para o VENCER – Instituto de Valorização da Ética na Conduta e Relacionamentos, ong que criei e dirijo. A instituição oferece um tipo de educação especial, que é o desenvolvimento da inteligência emocional, um conceito muito novo em termos de educação, que visa alfabetizar o indivíduo emocionalmente, levando-o a se conhecer melhor e a ter uma melhor integração com o meio em que vive. O VENCER utiliza como instrumento a leitura, e mantém dois projetos nesta área, para faixas etárias diferentes: “Chá com Leitura”, para jovens e adultos; e “Faz-de-conta”, para crianças. Por trazer uma proposta inovadora, os projetos e a ong não se enquadram em propostas para captação de recursos e funciona independente, enfrentando as dificuldades comuns ao tipo de trabalho.
Também dou aulas de Redação, faço revisão em trabalhos escolares, ministro palestras em escolas, faço de tudo um pouco para me manter financeiramente, já que o trabalho na ong é voluntário.

2-Como surgiu seu interesse literário ?
Tive uma infância muito rica. Morava em um bairro pobre e as pessoas não tinham televisão em casa. Toda noite as mulheres levavam cadeiras para a frente da casa de minha mãe e ficavam contando histórias, casos de assombração, enquanto nós, as crianças, ficávamos sentadas no chão de terra vermelha, agarradas umas às outras, morrendo de medo. Na hora de dormir meu pai também contava histórias.
No gosto pela leitura fui influenciada pelo meu irmão José Luiz de Carvalho, e pela primeira professora, Wanda Kneipp. Os professores de Língua Portuguesa que tive ao longo da minha vida escolar foram um presente à parte – todos envolvidos com a arte literária.
Enfim, ler e escrever sempre me trouxeram muito prazer e, mais tarde, foi através da literatura que sobrevivi a situações de grande violência emocional.

3-Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?
Comecei a levar mais a sério o ato de escrever na década de 90 e, por ser muito autocrítica, acabei engavetando os primeiros livros que escrevi: “Aurora” e “Tom pastel”, ambos de crônicas. O primeiro trazia experiência adquirida ao longo da vida (escrevi quando tinha 28 anos), e o segundo era composto por textos criados na época em que trabalhei produzindo programas da Rádio Cataguases, em 1991. Mais tarde os livros foram destruídos, e também fotografias que marcavam minha atuação na área artística.
O contato com os poetas e mestres Joaquim Branco e Lina Tâmega me motivou muito, foram eles que me ofereceram a noção exata do que era produzir literatura: não se tratava de desabafo, inspiração apenas, era muito mais que isso – escrever era um ofício. E lapidar a palavra tornou-se um aprendizado que me fez ler muito mais que escrever nos anos que se seguiram..
Comecei a editar “Pensaminto” e, através dele, conheci escritores, poetas, jornalistas do Brasil e exterior, por onde circulava a publicação. Nesse período tive também poemas e textos de crítica literária publicados em vários jornais brasileiros.
Em 2001 publiquei meu primeiro livro, “Quase Pecado – poesia e prosa” e neste mês de dezembro ficou pronto o segundo, “Meandros”, que tem lançamento previsto para março próximo.

4-Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?
A literatura, como toda arte, é a forma de expressão dos que não se adaptam à vida como ela se apresenta. A arte é a recriação da realidade, sob o comando da sensibilidade do artista. No caso específico da literatura, o cotidiano é a matéria-prima, e a palavra é instrumento. Um cotidiano insatisfatório é o grande impacto que leva o artista a se expressar, mas o complexo de ser um deus recriador da vida o leva à busca incessante de perfeição, que proporciona a qualidade do fazer literário. Assim, embora a negação da realidade seja um impacto favorável à expressão literária, o “sentir-se deus” é o que proporciona a atmosfera da produção da boa literatura.

5-Quais os escritores que você admira ?
Gosto da poesia de Fernando Pessoa, especialmente de seu heterônimo Alberto Caeiro. Gosto dos labirintos por que se enfiam os contos do Luiz Ruffato, do gosto e cheiro da poesia do José Inácio Vieira de Melo. Aprecio a construção requintada e concisa dos poemas do Edival Perrini. Poderia ainda citar Astrid Cabral, Tereza Tenório, Lina Tâmega, Márcia Carrano... tem muita literatura de qualidade circulando neste país.

6-Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?
Ninguém nasce pronto. Esteja, portanto, sempre atento às críticas, aprenda com elas. Leia outros poetas, estude teoria literária, conheça as técnicas da produção de poesia. Só consegue respeito no meio literário quem conhece da arte a que se propõe. Até mesmo para transgredir as regras é necessário conhecê-las.
Considere-se um aprendiz, sempre experimentando palavras na construção de sua poesia. O sucesso não deve ser objetivo, mas consequência.


FOTOGRAFIA


O que te fere os olhos
não é a nudez
que se espalha no retrato:
é a mudez
que espelha
tua fome
que desata

tua alma
a carne fere
quando é fato
o desejo
que a mata



EM CARNE E VERBO
noturnamente
suicida-me
arranca-me de mim

despida
encolho-me
enxergo-me

amanhece-me noturnamente
ressuscita-me
e me abro:
feminina-me



CAÇADA

a fêmea devora
a presa
com o olhar
voraz

a fêmea ferve
o sangue
da presa
para atacar

a fêmea penetra
o cerne do ser
que se rende
arde
queima
morre
e se refaz



IDALINA DE CARVALHO
feminina e singular


Vivi toda a infância alinhavando, junto com os tecidos da mãe costureira, as palavras-retalhos que comporiam minha história. Nascida sob o signo de capricórnio, filha caçula de Idalvino e Nitinha, tive uma infância de liberdade, sempre trepada em árvores, pés descalços, música de bichos e muita imaginação. Construía meus brinquedos: móveis de caixas de fósforos, boizinhos de melão, bonecos de batata. E lia muito: os livros eram trazidos pelo meu irmão, José Luiz de Carvalho, que, embora não tenha tido intenção clara de me incentivar a ler, através de seu amor pelos livros, acabou exercend grande influência sobre mim. Voltava correndo da escola e mergulhava em viagens através dos livros – dos permitidos e dos proibidos, que Zé Luiz escondia embaixo de seu colchão.

Os professores que tive no Colégio Cataguases só aumentaram ainda mais o gosto de ficar horas e horas mergulhada no mundo imaginário que a literatura me proporcionava. Wanda Kneipp, Márcia Carrano, Gradim, exerceram grande influência no meu gosto pela palavra.
Fui cronista de jornais, trabalhei com produção de programas da Rádio Cataguases e Rádio Solar de Juiz de Fora. Editei a Revista de Literatura e Arte PENSAMINTO, de 1995 a 2000 (com circulação internacional. Fui coordenadora municipal de cultura, professora de português e redação, criadora do VENCER – Instituto de Valorização da Ética na Conduta e Relacionamentos – instituição que promove a alfabetização emocional de crianças e jovens, objetivando a formação ética, através de uma educação diversa da oferecida pelo sistema tradicional de ensino.
Publiquei em 2001 o livro Quase Pecado – poesia e prosa. E no dia 12 deste mês de março estarei lançando meu novo livro: Meandros, uma coletânea de minicontos e poemas - em sua maioria eróticos - escritos depois da publicação do primeiro livro. Tenho também escritos a ficção juvenil “Beijar , ficar e outros verbos adolescentes”(disponível na internet), e uma série de livrinhos infantis para crianças em fase inicial de alfabetização, ainda não publicados.
Nessa minha busca incessante de conhecimento e de novas experiências, atualmente curso Filosofia na Universidade Federal de Juiz de Fora, residindo em Cataguases apenas nos finais de semana. Saiba mais sobre mim na internet, faça a busca de seu nome no google ou visite os sites:
www.idalinadecarvalho.xpg.com.br
www.chacomleitura.blogspot.com
www.twitter.com/idalinacarvalho
http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=16563743397271571485

IDALINA DE CARVALHO POR JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


A poesia de Idalina de Carvalho tem uma força erótica que envolve o leitor, tirando suspiros do seu silêncio."Silêncio" que se trai e sussurra sibilante: "sim / sou / sua // aquece / sacia / sossega-me o cio". O seu erotismo tem algo de religioso e atinge a dimensão do sagrado, como pode-se perceber no poema "Harmonia":

Havia céu e solidão.
Em silêncio
uma estrela
ardia orgasmo
na escuridão.
Sempre o silêncio a povoar seus mistérios, seus êxtases.

A poeta portuguesa Ana Hatherly afirma que "não há criação sem dor". Idalina parece comungar com o pensamento da experimentalista lusitana, como pode-se notar no poema "Caçada": "A fêmea penetra / o cerne do ser / que se rende / arde / queima / morre / e se refaz", mas, apesar desse arder, desse queimar, a poeta de Cataguases, tal qual fênix, está sempre a ressurgir. Na verdade, recomeçar é o seu lema.

E, impregnado de sensualidade, o "Filme erótico" de sua poética continua em cartaz:

Gemidos perdem-se
em espectros de nudez
devorados pelo espelho.

Palavras ecoam
sem compromisso de nexo.

Sexo
loucura
êxtase
relaxo.
Resta ao leitor buscar o final dessa película, ou as cenas do próximo capítulo. Que novidades trará Idalina de Carvalho?

*José Inácio Vieira de Melo é jornalista, co-editor de Iararana - revista de arte, crítica e literatura, Bahia.

15 fevereiro 2010

ALMA EXPOSTA NA JANELA (Por Lau Siqueira)



Uma poesia sem as algemas conceituais da contemporaneidade. É assim que escreve Idalina de Carvalho, de Cataguases para o mundo. (Do mundo para dentro de si). Uma poesia despida dos barroquismos da moda e das cantilenas neoconservadoras. Palavras que se conjugam na procura de uma linguagem que ao mesmo tempo revele e esconda suas ansiedades.

"Tua alma
a carne fere
quando é fato
o desejo
que a mata"

Nos versos acima, a poeta experimenta nas sensações humanas uma espécie de método inventivo, bem construído, denso o suficiente para impor-se diante do seu impulso criativo. Um procedimento a mesmo tempo superlativo e subjetivo grito e silêncio no tratamento das suas próprias sensações.

Idalina escreve sem as empáfia dos fardões clericais de determinados focos da produção poética brasileira. Aliás, muito mais políticos que líricos. Muito mais repetitivos de velhas vanguardas, que experimentais. Ela sabe que os destinos de uma composição de signos não depende do olhar quase sempre míope de uma crítica encerrada nos próprios limites. Uma poesia que se impõe pela beleza e pela forma muito particular de alcançar os próprios caminhos, sem as máculas de uma textura diluidora pelas "invenções inventadas" que tanto mal tem feito à relação entre poetas de diferentes matizes estéticas. Ela bebe nas fontes sempre inesgotáveis do modernismo, negando-se ao naufrágio. Caminha por sobre o sudário cabralino, revertendo concisões e cometendo o ato necessário de mastigar a suavidade da sua carpintaria, para determinar em si os próximos momentos das suas incursões em busca de um jeito muto singular de lidar com as palavras.

"tua cegueira
é o que te impede
de fitar-me"

Por vezes de cariz filosófico, por vezes de uma abordagem cravada na psiquê.

Ativista de uma literatura que se renova pelos fanzines, pelos blogs e cada vez mais distante das ditaduras estéticas do mercado (inexistente) experimental do livro de poesia no Brasil, a poeta trava dentro de si uma batalha de encantamentos que surpreendem pela beleza e pela inversão de significantes, revelando-se por isso mesmo, necessária.

* Lau Siqueira é poeta gaúcho, reside atualmente na Paraíba.
www.poesia-sim-poesia.blogspot.com
www.lau-siqueira.blogspot.com
www.cronopios.com.br

A POESIA DE IDALINA DE CARVALHO (por Edival Perrini)



Acompanho a poesia e o projeto literário de Idalina de Carvalho desde a década de 1990, quando a conheci em seus "Pensamintos".

Sei que estou diante da Poesia quando as palavras reunidas têm a magia de tocar a alma. A poesia de Idalina é assim: tem o tempero que dá vida ao poema; tem o singelo do olhar que adivinha o precioso; tem o gemido da fêmea que se "feminiza" em seus gritos e sussurros.

Tocado na alma, identifico o caos e reverbero com o humano que o habita. Se canto, por exemplo, "Tarde demais / quando até o digital da praça / perdeu / a noção do tempo.", hasteio a bandeira do paradoxo: posso sentir o tempo, e vivê-lo!

É alentador saber que a poesia de Idalina de Carvalho ganhou páginas de livro. E é alentador também saber que "poemas jamais escrito, grávidos nos olhos do poeta" deixaram seu estado de "quietude", e se somaram a estes bem nascidos.

*Edival Perrini é médico psiquiatra de Curitiba e poeta.
www.edivalperrini.com.br

15 janeiro 2010

POESIA DA ENTREGA (Por *Jurema Barreto de Souza)


A escrita de Idalina de Carvalho é a poesia da entrega, seja em verso ou em prosa. Insinuantes as palavras criam uma trilha até o que há de mais humano nas relações com o outro, com a vida e seus múltiplos caminhos e sentidos. E na simplicidade do expor-se em desejos, anseios e segredos, sua poesia captura nossa atenção. Tão difícil ser simples e ao mesmo tempo ter essência. Idalina de Carvalho consegue observar o mundo "com olhos livres" e nos contar e fazer sentir como o vê, com paixão, ternura, coragem e beleza, elementos que temperam e dão sabor à sua poesia.

*Jurema Barreto de Souza é poeta, contista e professora de Educação Infantil e Fundamental, é formada em Letras e Pedagogia. Paulista de Santo André, editou, com o Grupo Livrespaço, a "Revista Livrespaço" (1992-1994), ganhadora do prêmio APCA 1993. Edita,desde 1982, o periódico literário "A Cigarra".

11 outubro 2010

PENSAMINTO - Revista de Literatura e Arte (edição 13)


Publicada em abril de 2000, a 13ª edição de "Pensaminto", em sua segunda fase, trouxe na capa arte de Bonin e,no miolo, um apanhado sobre a poesia em Juiz de Fora, dando enfoque especial para a poesia de Iacyr Anderson Freitas e artigo de Jorge Sanglard sobre os movimentos literários naquela cidade, com poemas de Fernando Fiorese, Júlio Polidoro, Marta Gonçalves,Eustáquio Gorgone, Gilvan P. Ribeiro, Knorr e Edimilson de Almeira Pereira. Confira flashes da revista.

SÉRIE ARTISTAS PLÁSTICOS DE CATAGUASES

BONIN

Com estilo voltado para o expressionismo abstrato, Bonin apresenta em sua obra, como característica marcante, a expressão da essência histórica contemporânea. Assim, cada traço seu traz, ainda que nas nuances mais subjetivas, pedaço de um tempo, de um fato,imagem que tenha marcado ou que venha a marcar a história.
Nascido na cidade de Leopoldina em 24 de maio de 1963, Bonin reside em Cataguases desde 1978. Pinta desde 1983, tendo realizado várias exposições individuais e mais de 20 coletivas em Cataguases, Brasília, Belo Horizonte e Juiz de Fora, entre outras cidades.
Trabalha dentro das técnicas: óleo sobre tela, guache e nanquim.


UM POETA NO CAMINHO
IACYR ANDERSON FREITAS
A poesia de Iacyr é marcada por metáforas densas, por um sentido mergulhado na complexidade da vida e da morte. Não é a melodia ou mesmo a beleza de imagens que marca o estilo deste poeta, mas os labirintos que forçam o leitor a investigar, desvendar signos, descobrir o poema com sua riqueza semântica e sofisticação literária.
Iacyr nasceu em Patrocínio do Muriaé, em 1963. É engenheiro civil por formação, também mestre em Teoria da Literatura. Entre os seus inúmeros livros publicados, Pensaminto destaca dois poemas dos livros "Lázaro" (d'lira, 1995) e "mirante" (d'lira, 1999).

SENTIDO
decerto um ritmo,
algo impeciso
em suas conchas,
saberá lembrar
o que se escreve agora,
à cilha
que o calor segreda,
mas em rusga,
sem outros liames
que o delito dessas flores,
ó pobres, ó desguarnecidas,
como o sol
de um telheiro carcomido
sob a pele.

um ritmo: decerto
muito pouco
ante o vestígio
do que aqui se espera.

eis que a hora fecha-se
nos mangues.
o sentido dorme,
a paixão procura
a morte, outra quimera.

POSFÁCIO
Abre-se um novo embate. Abre-se a musa.
Eis que o metro força o antigo engenho.
Devo encaixar o mundo numa blusa
e, pródigo, doar que eu não tenho.
Devo encontrar outrora esse soneto.
Também medir com régua cada estrofe.
Não é fácil o risco em que me meto:
há que cuidar com fé, pra que não mofe
cada palavra. Cada ponto e acento,
cada elisão contida na fuzarca
do verbo e dor e lu em que me aguento.
Não busques aqui Camões ou Petrarca.
Não eleves tamanho experimento,
pois nem essa ilusão meu verso embarca.

POETAS DE JUIZ DE FORA

A MORTE
(Júlio Polidoro)
A morte e seu cortejo

Galopa sobre mim
eu passo.

Num jardim qualquer,
o Homem
quer-se afastado deste cálice.

Que posso dizer
Que não me movo de seu movimento?

Ao seu galope
respondo, chão cicatrizado.
..........
DANAÇÃO
Fernando Fiorese

Bom mesmo
era morar num lugar
de nome bonito
- Nossa Senhora dos Remédios,
São Tomé das Letras,
Dores do Turvo -
cultivar violetas e samambaias
e fazer do itinerário dos peixes
minha música
e não
ficar polindo os ossos do mito.
..........
SEZÃO
Gilvan P. Ribeiro

No sol de capricórnio
a carne nunca é triste.
Em cada encontro
o risco sempre existe
de momentos assim
pejados de tristura.
Mas passada a pancada
a emoção futura
carrega a dor embora
e do que é triste
faz outra vez motivo
pra estar em riste.
..........
ORELHA FURADA
Edimilson de Almeida Pereira

Dançar o nome com o braço na palavra: como
em sua casa um maconde

Dançar o nome pai dos deuses que pode tudo
neste mundo e suportar o lagarto querendo ser
bispo na sombra.

Dançar o nome na miséria, estrepe e tripa que a
folha do livro é. E se entender dono das letras
em sua cozinha.

Dançar o nome com a mulher nhora dele: a
mulher no seu coração tempestade e ciranda.

Dançar o nome com o braço na palavra berço.
..........
DOAÇÃO
Marta Gonçalves

Cortaram meus ossos ao iniciar o sol
e galos vermelhos sugaram o pó.

Fiquei oca como moringa de barro.

Não havia água.
Só o choro seco do tempo perdido.
..........
POEMAS/20
Eustáquio Gorgone

Nas quatro portas da cidade
teu olhar me cerca e fixa
na íris, minha íris, tua ira.
Sinto os arcos emparelhados,
primavera e inverno retidos,
o céu estrangeiro e branco.
Não posso antecipar as horas,
reter os vestígios do outono,
o canto das pedras e pássaros.

Irrigado por rios secos,
volto ao plantio do pó.


"Pensaminto",revista de Literatura e Arte, foi editada, de 1995 a 2000 por Idalina de Carvalho, em Cataguases (MG), e distribuída no Brasil e exterior.

09 outubro 2010

PENSAMINTO 12 - segunda fase



Publicado em março de 2000, a edição número 12 trouxe na capa a artista plástica Nanzita, em desenho feito exclusivamente para PENSAMINTO. Nanzita, nascida em Cataguases, começou a pintar em 1940, estudando com os mestres Ian Zack, Abelardo Zaluar e Frank Schaeffer. Idealizadora e criadora da "Gal Art" (Centro de Arte e Cultura de Cataguases), Nanzita expôs individualmente e em coletivas por todo o país e em várias cidades do Japão.

O que marca, sobretudo, o seu nome na história de Cataguases são os murais pintados por ela nas igrejas da cidade. Baseada no livro "Paixão de Cristosegundo o Cirurgião", de Pierre Barbet, Nanzita retratou a agonia de Cristo sob uma ótica vanguardista, marcadamente pelas cores que levam o público a meditar sobre a própria vida: Nas paredes do Santuário Santa Rita de Cássia, a artista deixou registrado seu estilo em "Via Sacra". Pintou ainda, sob o tema "São Francisco de Assis", mural na Capela da Fazenda do Rochedo, no distrito do Glória de Cataguases. E, na Igreja do Rosario, o mural pintado por Nanzita próximo à pia batismal, retrata os apóstolos numa interpretação bíblica original sobre a "Ressurreição de Cristo o batismo".


UM POETA NO CAMINHO
JOANYR DE OLIVEIRA

DOno de uma poesia de formação clássica, densa, sutil, de linguagem limpa é precisa. Joanyr é um poeta que domina perfeitamente a essência lírica, retratando, a um mesmo tempo, simplicidade, bom gosto extremo e beleza. Quem lê seus poemas, mergulha no mais profundo da alma humana. E sai leve, banhado pela beleza de "cascos que cavam-me os olhos", "casulos de silêncio que recolhem meu rosto", envolvido pelo "ninho: mão sem fadigas a colher a vida". Como disse Marcos Konder Reis: "Sua poesia dá a sensação (rara) e coisa acabada, onde se disse (bem) tudo">

Mineiro de Aimorés, Joanyr passou a residir em Brasília em 1960. Autor de mais de uma dúzia de livro de poesia e participante de coletâneas publicadas no Brasil e exterior, ganhou mais de trinta prêmios literários. Abaixo, dois poemas do seu livro "Pluricanto - trinta anos de poesia".

NO METRÔ DE PARIS
(A Íris Miglio)

A anular o silêncio,
no metrô em Paris,
dez dedos de ouro
destilaram canções.
Sobre as rodas monótonas,
idiomas revezaram-se
na celebração do amor.

Subitamente as cordas
acolitaram estrofe
ledas verde-amarelas
nos lábios suspensos:
eram Tom e Vinícius
como taças no ar...

Um sorriso se impôs
a abarcar todo o Rio
no outro lado do mar.
........................

EPITÁFIO

Os casulos do silêncio
recolhem meu rosto,
meu canto e meu nome.

Entre arcanjos e estrelas,
minha essência navega
o esplendor dos milênios.

Doce é o saber do infinito.

17 julho 2010

PENSAMINTO - Revista de Literatura e Arte



Com capa do artista plástico Sérgio França, o número 11 da segunda fase de PENSAMINTO homenageou o poeta Ronaldo Costa Fernandes, de Brasília, e trouxe também crítica sobre os livros infanto-juvenis: "La Cucaracha" (Cleonice Rainho) e "A dança da lua cheia" (de Joilson Portocalvo)e o artigo "Coibindo o bilingüismo", de Emanuel Medeiros Vieira.

SÉRGIO FRANÇA

Nasceu em Cataguases em 18 de agosto de 1959. Morou no Rio de Janeiro por dezessete anos, período em que, além das várias exposições de que participou, fez cenografia teatral. Está em Cataguases desde 1994 e integra o grupo de artistas plásticos G15.
Sua técnica é essencialmente óleo sobre tela, mas ele trabalha também com colagens e assemblagens. A característica principal de sua obra é a integração da pintura com o universo que o cerca, transformando-a quase em escultura.

Para contactar o artista, entre em contato conosco.


UM POETA NO CAMINHO

RONALDO COSTA FERNANDES


Por Idalina de Carvalho


Intuitivo, poeta de maturidade literária admirável, Ronaldo apresenta em seus poemas uma arquitetura retorcida, insana, marcada pelo inverso, em imagens de desejos e frustrações. Não é à natureza que o poeta dá o dom da vida - mas às coisas que aparecem em seus poemas - "lambendo, respirando, fumando a alma operária". O universo que o cerca é percebido com a cegueira de um sábio, recriando realidade, transferindo-a para dimensão diversa.

Ronaldo Costa Fernandes é um dos poetas mais inovadores da poesia contemporânea. Maranhense de São Luiz, morou por nove anos na Venezuela, dirigindo o Centro de Estudos Brasileiros (Embaixada do Brasil). Em 1994 foi para Brasília, onde foi coordenador da FUNARTE. "Estrangeiro" foi o seu primeiro livro de poemas, que o levou de volta à sua expressâo inicial, depois de haver passado pelo ensaio e prosa de ficção.

Dois livros seus: "Concerto para flauta e martelo"(romance-Codecri-1979) e "O ladrão de cartas"(novela-Civilização Brasileira-1981) ganharam, respectivamente, os prêmios "Autor Revelação" - da Associação Paulista de Críticos de Arte, e o "Prêmio Guimarães Rosa" - da Secretaria de Cultura de Minas Gerais. Ganhou ainda o prêmio "Casa de Las Américas", com "Notícias do horto".

Os dois poemas abaixo fazem parte do livro "O estrangeiro".

QUIETUDE

Acompanhei a dúvida das frutas amadurecendo
ainda no féretro do outono.
Tudo é quieto, finito
e profundo.
Os pescadores lançam
as varas de pescar
e esticam o tempo.
Os barcos, no cais, são vermes inquietos,
presos à terra.
As mangueiras dão frutos como os peitos
entumescidos das parturientes.
Cobiço as frutas vizinhas distantes cercas
de mim.
Pensei na esperança que deve ter muitos nomes.
Na morna tarde dos anos
e no futuro das lembranças de maio,
soturna e definitiva como uma lápide ao sol,
veio-me a vontade de riscos.

CIDADE PEQUENA

O sol
traço
morse
tenta
telegrafar
a manhã.

A nuvem
furta
o fruto
do galho
da árvore
do dia.

Os bois
mugem
a névoa
espessa
e
fria.

O trem
apita
a curva
metálica
e
uma chaminé
fuma
a alma
operária.

O carteiro
sela
o destino.
A igreja
repica
dízimos
periódicos.

A praça
roda
gigante
e
a moça
troca
o trote
do moço.

Por fim
o sol
cai
no cofre
e
a lua
desliza
rolimã.






27 abril 2010

PENSAMINTO - Revista de Literatura e Arte


Com o lançamento da segunda fase de sua publicação no mês de janeiro de 2000, PENSAMINTO marcou presença no cenário da imprensa alternativa cultural através da reunião de poetas e escritores do Brasil e de várias partes do mundo.

Na capa da edição 10 (o primeiro número da segunda fase), a ilustração com as nove capas da publicação em sua fase inicial marca a mudança do formato, de folheto para revista.

Vale ressaltar, nesta edição, o enfoque dado à poeta pernambucana Tereza Thenório, na página "Um poeta no caminho", transcrita a seguir:


TEREZA THENÓRIO

Por Idalina de Carvalho

O silêncio se faz presente na obra de Tereza Thenório, como gerador da beleza de seus poemas. É sempre de dentro que vê o mundo que a cerca, "sem palavras ou gestos terminais", mulher que "despe solitária os gestos de amor sobejo", "dissolvendo o silêncio" com a "solidão concreta a acionar os portões eletrônico de Wall Street".

Tereza está entre as melhores do nosso tempo. Nascida em Recife, Pernambuco, é mestra em Letras e tem formação ainda em Direito e Belas Artes.

Seus livros: Parábola (1970), O círculo e a pirâmide (1976), Mandala (1980), Noturno selvagm (1981), Poemaceso (1985), Corpo da Terra (1994).

(Atenção: As informações acima referem-se às atividades da autora até o ano de 2000, ano da publicação da revista "Pensaminto" de onde foi transcrito o texto).

Confira dois poemas do livo "Corpo da Terra":

ELES PASSEIAM

Eles passeiam os corpos no vazio
e minha voz refaz vicissitudes
Amei-os como ondas no mar frio
Depois de afogá-los no crepúsculo

trouxe-os lentamente um por um
longos braços e pernas para o estio
Retive em mim os corpos mutilados
Depois os devolvi ao negro rio

Uma canção sem sol fluiu-me à boca
Algum amei além da morte Outro
exatamente o espaço de uma lágrima

Eles passeiam sobre minha alma
enquanto o rio dissolve aos poucos
e uma canção sem sol me sai da boca

SUBLUNAR

A Madalena Freyre

Assim acesa máscara da sombra
eia a pátria do sonho e desalento
tatuada na pele ferro em brasa
a dispersar-se em círculos concêntricos
inundando paisagens dunas haras
arrecifes e atóis céus e silêncios
Quando as ondas engolem o sol e a praia
e os espelhos refletem até o sempre
o lamento final dos afogados
seus olhares sem cor ausente o tempo
ao sabor das correntes fio de espada
do mar que os despedaça suavemente
uma mulher constrói no coração
a estrela interior Dor desalento
transformam-se na luz Alva presença
do Anjo antes da queda em novo temp(l)o

(Pensaminto 10 - segunda fase - página 03. Cataguases - MG)
VEJA O PERFIL DE PENSAMINTO NO ORKUT:
http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=14595548097970280937

01 abril 2010

Fotos do lançamento de MEANDROS





Na primeira foto, Eliane Pessoa - coordenadora municipal do PROLER, Idalina de Carvalho e Maria Lúcia Soares - presidente do DEM Mulher de Minas Gerais.

Na segunda foto, José de Lelis e Idalina de Carvalho.

Logo abaixo, o poeta Israel Corraide, Idalina de Carvalho, o artista plástico Luiz Lopez e a psicóloga Glória.

Por último, Diego Lucas - músico e professor, a radialista Catarina Couto, Idalina de Carvalho e o teatrólogo Carlos Sérgio Bittencourt.

24 março 2010

LANÇAMENTO DE MEANDROS - FOTOS





Na primeira foto, Idalina ladeada pelas alunas Paty e Julyete.
Na segunda foto, com Roberto Catroli, responsável pela programação visual de MEANDROS.
Embaixo, da esquerda para a direita, o escritor Vanderlei Pequeno, o teatrólogo Carlos Sérgio Bittencourt, o poeta Ronaldo Werneck, Idalina e o professor de literatura, Diego Lucas.

LANÇAMENTO DO LIVRO MEANDROS




A chuva intensa que caiu na cidade de Cataguases na noite de 12 de março último não tirou o brilho do lançamento do livro "Meandros", que reúne poemas e minicontos sensuais de Idalina de Carvalho.

O Centro Cultural Humberto Mauro em Cataguases, recebeu nomes expressivos do meio cultural, bem como jornalistas e amigos da autora, numa ambiente aconchegante e descontraído, no evento regado à brasileiríssima cerveja gelada e um delicioso coquetel da Dona Ziroca.

Segundo a autora, o livro "Beijar, ficar e outros verbos adolescentes" disponível em seu site, poderá ser publicado ainda neste ano, se for aprovado pela Lei Municipal de Apoio à Cultura, "Ascânio Lopes".

Atualmente cursando Filosofia na Universidade Federal de Juiz de Fora, Idalina se divide entre Cataguases e aquela cidade, onde encontra um novo contexto para as suas vivências e, como conseqüência, para as suas histórias.

Confira mais fotos sobre o lançamento no site:
http://www.primeirojornal.jor.br/

07 março 2010

LANÇAMENTO DO NOVO LIVRO "MEANDROS"


Título do livro: MEANDROS (poemas e minicontos)
Autora: Idalina de Carvalho
Número de páginas: 60

RELEASE
“Meandros” reúne a parte mais sensual da obra de Idalina de Carvalho, com poemas de um erotismo sutil, quase religioso.
Enquanto “Quase Pecado”, o primeiro livro publicado, apresentava um surrealismo pontiagudo, quase insano, este segundo livro, embora também carregado de emoções fortes, trata muito mais do prazer que do pecado.
Idalina de Carvalho escreve pouco, devido ao exagerado senso crítico, por haver exercido por tanto tempo a crítica literária enquanto editava “Pensaminto”.
Por influência do poeta concreto Joaquim Branco, criou o hábito do estilo conciso, quase mudo, de retratar a vida. Há silêncio em sua poesia.
Com a mestra Lina Tâmega, aprendeu a brincar e exercer seu domínio sobre a palavra, fazendo da emoção apenas o tempero de seus escritos.
“Dama das palavras”: é assim que vários amigos definem Idalina, pela facilidade que ela tem de transformar e fazer caber em cada palavra o sentido da própria vida.
O livro “Meandros” é dividido em duas partes: a primeira com poemas e a segunda com minicontos que, na opinião de muitos, são o ponto forte da obra de Idalina.
Abaixo, dois minicontos e dois poemas do livro MEANDROS.

SILÊNCIO

Sim
sou
sua

aquece
sacia
sossega-me o cio

suga
sorve a seiva
dessa sua serva

sobe ao céu
em sussurros
espasmos

sim
sou
sua


CANTIGA

sol com chuva
casamento de viúva

a poesia não resistiu
molhou-se feito criança
no meio da rua

sol com chuva
casamento de viúva
é tempestade de verão

sol com chuva
a viúva está molhada

sol com chuva
lua e mel

sol com chuva
arco-íris
passarela multicor
festa no céu
**********

MÃE DE FAMÍLIA

Os gritos que não que agora não e o fogo esquentando a barriga encostada no fogão e a insistência dele e a comida no fogo, hora de almoço, levar as crianças para a escola e a cozinha desarrumada, pia cheia de vasilhas e não não e não, agora não, e ele invadindo seu espaço, umedecendo sua nuca e ouvidos ofegante em sussurros, e ela perdendo as forças, pernas estremecidas e as mãos dele afrouxando sua saia e ela sem voz em sussurros não por favor não, o almoço, panela fritando arroz, bife na outra trempa, feijão inteiro fervendo, o fogo invadindo toda a cozinha e a mesa posta, e as crianças na casa da avó tomando banho, e a comida...
o cheiro da comida queimada, abolida de condição de ser almoço.


FINAL FELIZ

Naquela noite cobriu-a de mimos. Foram palavras, sonhos em pinturas vazadas até sons denunciarem novo dia. Braços a puxá-la noite adentro e sussurros te amo, te amo, juras de nunca usar extremos da cama, ladainhas de protetor, querer vê-la feliz, de não merecer tal vida de sacrifícios. E beijos tantos, tantos, até lábios amolecerem de tanto vadiar. Um sentir a vida de dentro, intenso, amor de verdade daqueles de filmes de cinema.
Depois casaram-se.



IDALINA DE CARVALHO
(alternativa e marginal)


* Entrevista publicada no www.antologiamomentoliterocultural.blogspot.com (blog do jornalista Selmo Vasconcelos, colunista do Momento lítero-cultural, de Rondônia.

1-Quais as suas outras atividades, além de escrever ?
Desde 2006 minha atenção tem estado voltada para o VENCER – Instituto de Valorização da Ética na Conduta e Relacionamentos, ong que criei e dirijo. A instituição oferece um tipo de educação especial, que é o desenvolvimento da inteligência emocional, um conceito muito novo em termos de educação, que visa alfabetizar o indivíduo emocionalmente, levando-o a se conhecer melhor e a ter uma melhor integração com o meio em que vive. O VENCER utiliza como instrumento a leitura, e mantém dois projetos nesta área, para faixas etárias diferentes: “Chá com Leitura”, para jovens e adultos; e “Faz-de-conta”, para crianças. Por trazer uma proposta inovadora, os projetos e a ong não se enquadram em propostas para captação de recursos e funciona independente, enfrentando as dificuldades comuns ao tipo de trabalho.
Também dou aulas de Redação, faço revisão em trabalhos escolares, ministro palestras em escolas, faço de tudo um pouco para me manter financeiramente, já que o trabalho na ong é voluntário.

2-Como surgiu seu interesse literário ?
Tive uma infância muito rica. Morava em um bairro pobre e as pessoas não tinham televisão em casa. Toda noite as mulheres levavam cadeiras para a frente da casa de minha mãe e ficavam contando histórias, casos de assombração, enquanto nós, as crianças, ficávamos sentadas no chão de terra vermelha, agarradas umas às outras, morrendo de medo. Na hora de dormir meu pai também contava histórias.
No gosto pela leitura fui influenciada pelo meu irmão José Luiz de Carvalho, e pela primeira professora, Wanda Kneipp. Os professores de Língua Portuguesa que tive ao longo da minha vida escolar foram um presente à parte – todos envolvidos com a arte literária.
Enfim, ler e escrever sempre me trouxeram muito prazer e, mais tarde, foi através da literatura que sobrevivi a situações de grande violência emocional.

3-Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País ?
Comecei a levar mais a sério o ato de escrever na década de 90 e, por ser muito autocrítica, acabei engavetando os primeiros livros que escrevi: “Aurora” e “Tom pastel”, ambos de crônicas. O primeiro trazia experiência adquirida ao longo da vida (escrevi quando tinha 28 anos), e o segundo era composto por textos criados na época em que trabalhei produzindo programas da Rádio Cataguases, em 1991. Mais tarde os livros foram destruídos, e também fotografias que marcavam minha atuação na área artística.
O contato com os poetas e mestres Joaquim Branco e Lina Tâmega me motivou muito, foram eles que me ofereceram a noção exata do que era produzir literatura: não se tratava de desabafo, inspiração apenas, era muito mais que isso – escrever era um ofício. E lapidar a palavra tornou-se um aprendizado que me fez ler muito mais que escrever nos anos que se seguiram..
Comecei a editar “Pensaminto” e, através dele, conheci escritores, poetas, jornalistas do Brasil e exterior, por onde circulava a publicação. Nesse período tive também poemas e textos de crítica literária publicados em vários jornais brasileiros.
Em 2001 publiquei meu primeiro livro, “Quase Pecado – poesia e prosa” e neste mês de dezembro ficou pronto o segundo, “Meandros”, que tem lançamento previsto para março próximo.

4-Qual (is) o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura ?
A literatura, como toda arte, é a forma de expressão dos que não se adaptam à vida como ela se apresenta. A arte é a recriação da realidade, sob o comando da sensibilidade do artista. No caso específico da literatura, o cotidiano é a matéria-prima, e a palavra é instrumento. Um cotidiano insatisfatório é o grande impacto que leva o artista a se expressar, mas o complexo de ser um deus recriador da vida o leva à busca incessante de perfeição, que proporciona a qualidade do fazer literário. Assim, embora a negação da realidade seja um impacto favorável à expressão literária, o “sentir-se deus” é o que proporciona a atmosfera da produção da boa literatura.

5-Quais os escritores que você admira ?
Gosto da poesia de Fernando Pessoa, especialmente de seu heterônimo Alberto Caeiro. Gosto dos labirintos por que se enfiam os contos do Luiz Ruffato, do gosto e cheiro da poesia do José Inácio Vieira de Melo. Aprecio a construção requintada e concisa dos poemas do Edival Perrini. Poderia ainda citar Astrid Cabral, Tereza Tenório, Lina Tâmega, Márcia Carrano... tem muita literatura de qualidade circulando neste país.

6-Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas ?
Ninguém nasce pronto. Esteja, portanto, sempre atento às críticas, aprenda com elas. Leia outros poetas, estude teoria literária, conheça as técnicas da produção de poesia. Só consegue respeito no meio literário quem conhece da arte a que se propõe. Até mesmo para transgredir as regras é necessário conhecê-las.
Considere-se um aprendiz, sempre experimentando palavras na construção de sua poesia. O sucesso não deve ser objetivo, mas consequência.


FOTOGRAFIA


O que te fere os olhos
não é a nudez
que se espalha no retrato:
é a mudez
que espelha
tua fome
que desata

tua alma
a carne fere
quando é fato
o desejo
que a mata



EM CARNE E VERBO
noturnamente
suicida-me
arranca-me de mim

despida
encolho-me
enxergo-me

amanhece-me noturnamente
ressuscita-me
e me abro:
feminina-me



CAÇADA

a fêmea devora
a presa
com o olhar
voraz

a fêmea ferve
o sangue
da presa
para atacar

a fêmea penetra
o cerne do ser
que se rende
arde
queima
morre
e se refaz



IDALINA DE CARVALHO
feminina e singular


Vivi toda a infância alinhavando, junto com os tecidos da mãe costureira, as palavras-retalhos que comporiam minha história. Nascida sob o signo de capricórnio, filha caçula de Idalvino e Nitinha, tive uma infância de liberdade, sempre trepada em árvores, pés descalços, música de bichos e muita imaginação. Construía meus brinquedos: móveis de caixas de fósforos, boizinhos de melão, bonecos de batata. E lia muito: os livros eram trazidos pelo meu irmão, José Luiz de Carvalho, que, embora não tenha tido intenção clara de me incentivar a ler, através de seu amor pelos livros, acabou exercend grande influência sobre mim. Voltava correndo da escola e mergulhava em viagens através dos livros – dos permitidos e dos proibidos, que Zé Luiz escondia embaixo de seu colchão.

Os professores que tive no Colégio Cataguases só aumentaram ainda mais o gosto de ficar horas e horas mergulhada no mundo imaginário que a literatura me proporcionava. Wanda Kneipp, Márcia Carrano, Gradim, exerceram grande influência no meu gosto pela palavra.
Fui cronista de jornais, trabalhei com produção de programas da Rádio Cataguases e Rádio Solar de Juiz de Fora. Editei a Revista de Literatura e Arte PENSAMINTO, de 1995 a 2000 (com circulação internacional. Fui coordenadora municipal de cultura, professora de português e redação, criadora do VENCER – Instituto de Valorização da Ética na Conduta e Relacionamentos – instituição que promove a alfabetização emocional de crianças e jovens, objetivando a formação ética, através de uma educação diversa da oferecida pelo sistema tradicional de ensino.
Publiquei em 2001 o livro Quase Pecado – poesia e prosa. E no dia 12 deste mês de março estarei lançando meu novo livro: Meandros, uma coletânea de minicontos e poemas - em sua maioria eróticos - escritos depois da publicação do primeiro livro. Tenho também escritos a ficção juvenil “Beijar , ficar e outros verbos adolescentes”(disponível na internet), e uma série de livrinhos infantis para crianças em fase inicial de alfabetização, ainda não publicados.
Nessa minha busca incessante de conhecimento e de novas experiências, atualmente curso Filosofia na Universidade Federal de Juiz de Fora, residindo em Cataguases apenas nos finais de semana. Saiba mais sobre mim na internet, faça a busca de seu nome no google ou visite os sites:
www.idalinadecarvalho.xpg.com.br
www.chacomleitura.blogspot.com
www.twitter.com/idalinacarvalho
http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=16563743397271571485

IDALINA DE CARVALHO POR JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO


A poesia de Idalina de Carvalho tem uma força erótica que envolve o leitor, tirando suspiros do seu silêncio."Silêncio" que se trai e sussurra sibilante: "sim / sou / sua // aquece / sacia / sossega-me o cio". O seu erotismo tem algo de religioso e atinge a dimensão do sagrado, como pode-se perceber no poema "Harmonia":

Havia céu e solidão.
Em silêncio
uma estrela
ardia orgasmo
na escuridão.
Sempre o silêncio a povoar seus mistérios, seus êxtases.

A poeta portuguesa Ana Hatherly afirma que "não há criação sem dor". Idalina parece comungar com o pensamento da experimentalista lusitana, como pode-se notar no poema "Caçada": "A fêmea penetra / o cerne do ser / que se rende / arde / queima / morre / e se refaz", mas, apesar desse arder, desse queimar, a poeta de Cataguases, tal qual fênix, está sempre a ressurgir. Na verdade, recomeçar é o seu lema.

E, impregnado de sensualidade, o "Filme erótico" de sua poética continua em cartaz:

Gemidos perdem-se
em espectros de nudez
devorados pelo espelho.

Palavras ecoam
sem compromisso de nexo.

Sexo
loucura
êxtase
relaxo.
Resta ao leitor buscar o final dessa película, ou as cenas do próximo capítulo. Que novidades trará Idalina de Carvalho?

*José Inácio Vieira de Melo é jornalista, co-editor de Iararana - revista de arte, crítica e literatura, Bahia.

15 fevereiro 2010

ALMA EXPOSTA NA JANELA (Por Lau Siqueira)



Uma poesia sem as algemas conceituais da contemporaneidade. É assim que escreve Idalina de Carvalho, de Cataguases para o mundo. (Do mundo para dentro de si). Uma poesia despida dos barroquismos da moda e das cantilenas neoconservadoras. Palavras que se conjugam na procura de uma linguagem que ao mesmo tempo revele e esconda suas ansiedades.

"Tua alma
a carne fere
quando é fato
o desejo
que a mata"

Nos versos acima, a poeta experimenta nas sensações humanas uma espécie de método inventivo, bem construído, denso o suficiente para impor-se diante do seu impulso criativo. Um procedimento a mesmo tempo superlativo e subjetivo grito e silêncio no tratamento das suas próprias sensações.

Idalina escreve sem as empáfia dos fardões clericais de determinados focos da produção poética brasileira. Aliás, muito mais políticos que líricos. Muito mais repetitivos de velhas vanguardas, que experimentais. Ela sabe que os destinos de uma composição de signos não depende do olhar quase sempre míope de uma crítica encerrada nos próprios limites. Uma poesia que se impõe pela beleza e pela forma muito particular de alcançar os próprios caminhos, sem as máculas de uma textura diluidora pelas "invenções inventadas" que tanto mal tem feito à relação entre poetas de diferentes matizes estéticas. Ela bebe nas fontes sempre inesgotáveis do modernismo, negando-se ao naufrágio. Caminha por sobre o sudário cabralino, revertendo concisões e cometendo o ato necessário de mastigar a suavidade da sua carpintaria, para determinar em si os próximos momentos das suas incursões em busca de um jeito muto singular de lidar com as palavras.

"tua cegueira
é o que te impede
de fitar-me"

Por vezes de cariz filosófico, por vezes de uma abordagem cravada na psiquê.

Ativista de uma literatura que se renova pelos fanzines, pelos blogs e cada vez mais distante das ditaduras estéticas do mercado (inexistente) experimental do livro de poesia no Brasil, a poeta trava dentro de si uma batalha de encantamentos que surpreendem pela beleza e pela inversão de significantes, revelando-se por isso mesmo, necessária.

* Lau Siqueira é poeta gaúcho, reside atualmente na Paraíba.
www.poesia-sim-poesia.blogspot.com
www.lau-siqueira.blogspot.com
www.cronopios.com.br

A POESIA DE IDALINA DE CARVALHO (por Edival Perrini)



Acompanho a poesia e o projeto literário de Idalina de Carvalho desde a década de 1990, quando a conheci em seus "Pensamintos".

Sei que estou diante da Poesia quando as palavras reunidas têm a magia de tocar a alma. A poesia de Idalina é assim: tem o tempero que dá vida ao poema; tem o singelo do olhar que adivinha o precioso; tem o gemido da fêmea que se "feminiza" em seus gritos e sussurros.

Tocado na alma, identifico o caos e reverbero com o humano que o habita. Se canto, por exemplo, "Tarde demais / quando até o digital da praça / perdeu / a noção do tempo.", hasteio a bandeira do paradoxo: posso sentir o tempo, e vivê-lo!

É alentador saber que a poesia de Idalina de Carvalho ganhou páginas de livro. E é alentador também saber que "poemas jamais escrito, grávidos nos olhos do poeta" deixaram seu estado de "quietude", e se somaram a estes bem nascidos.

*Edival Perrini é médico psiquiatra de Curitiba e poeta.
www.edivalperrini.com.br

15 janeiro 2010

POESIA DA ENTREGA (Por *Jurema Barreto de Souza)


A escrita de Idalina de Carvalho é a poesia da entrega, seja em verso ou em prosa. Insinuantes as palavras criam uma trilha até o que há de mais humano nas relações com o outro, com a vida e seus múltiplos caminhos e sentidos. E na simplicidade do expor-se em desejos, anseios e segredos, sua poesia captura nossa atenção. Tão difícil ser simples e ao mesmo tempo ter essência. Idalina de Carvalho consegue observar o mundo "com olhos livres" e nos contar e fazer sentir como o vê, com paixão, ternura, coragem e beleza, elementos que temperam e dão sabor à sua poesia.

*Jurema Barreto de Souza é poeta, contista e professora de Educação Infantil e Fundamental, é formada em Letras e Pedagogia. Paulista de Santo André, editou, com o Grupo Livrespaço, a "Revista Livrespaço" (1992-1994), ganhadora do prêmio APCA 1993. Edita,desde 1982, o periódico literário "A Cigarra".